Artigo: Prof. Vanderlei de Lima TOPPAZ

 

Na manhã de quinta-feira, dia 7 de julho, dirigi-me à Rua Uruguaiana n. 276, cruzamento com a movimentada Avenida Francisco Glicério, no coração de Campinas, a fim de conversar – conforme combinara por telefone – com Romildo dos Santos, o popular Carioca, presidente da Torcida Jovem Amor Maior da Ponte Preta, TJP.

A reunião estava marcada para às 12 horas, mas cheguei lá por volta de 11h15, seguindo a conduta que procuro levar à risca: é importante, sempre que se tem um compromisso agendado, sair de casa mais cedo a fim de não ser impedido por nenhum imprevisto. Ali, entre a loja da Macaca e a sede (uma casa anexa), fiquei conversando com alguns membros da TJP, sobretudo com o Giu que me dedicou especial atenção. Desde já, fique aqui registrada a minha gratidão a ele pela conversa sincera que ajudou o tempo passar e também o agradecimento cordial pelo convite feito para eu visitar o local de encontros da Jovem na “quebrada” (bairro) em que ele mora.

Eis, porém, que meio-dia em ponto, hora em que os ponteiros do relógio apontam para o infinito, na passagem de um carro chique e devagar, os rapazes me anunciaram: “Professor, o Carioca chegou”. Desceu do veículo um senhor de aparência jovial – apesar de seus 67 anos, como me dissera depois –, roupa esporte, olhar atento e acolhedor e dirigiu-se para onde eu estava.

Cumprimentamo-nos com um aperto de mão firme, próprio de quem tem metas na vida, e ele, então, fez uma apresentação mais detalhada dos jovens com os quais conversei, segundo a função que ocupam na torcida alvinegra campineira, convidando-me, depois, para entrar na casa que Carioca chama de “nossa modesta sede”.

Ali, sentados cada um em um sofá, pusemo-nos a conversar – e que boa conversa! Seria preciso um exímio observador para ver quem de nós dois falou mais – sobre vários assuntos envolvendo as organizadas brasileiras. Aliás, não posso deixar de dizer que o presidente da TJP é o tipo de pessoa com a qual tenho satisfação em dialogar: ele não faz rodeios, não gagueja e nem repete aqueles famosos chavões, próprios de gente indecisa, como: “deixemos para depois”, “vamos conversando”, “vamos amadurecer a ideia”, etc. Nada disso. Com ele – e assim prefiro – é 8 ou 80, é o pingo nos is e ponto final.

Nessa reciprocidade de confiança, o papo foi avançando pela tarde adentro sempre naquele clima de verdadeira cordialidade à moda brasileira. Falei pelo seu rádio (que ele me ensinou a mexer) com presidentes de várias organizadas do Brasil e até com o promotor Paulo Castilho que parece tratar muito bem o presidente da Jovem da Ponte.

Expus ao Carioca o projeto da TOPPAZ, Torcida Organizada Pela Paz, que visa à sadia convivência entre torcedores rivais no dia-a-dia; o contato entre as lideranças de organizadas sérias a fim de evitar os confrontos em dias de jogos e elevar a bandeira da paz e da harmonia social neste Brasil de tantas desigualdades. Esse projeto quer ajudar as organizadas que a ele aderem neste tempo em que as torcidas são tão combatidas por vários meios. Foi, por isso, que a TJP, demonstrando boa intenção, aceitou, de imediato, o convite para se associar à TOPPAZ. Isso é, sem dúvida, muito gratificante.

Interessante é que antes de eu perguntar ao Carioca, verdadeiro diplomata à minha frente, qual era a sua formação acadêmica, ele, parecendo ler o meu semblante, disse: “Professor, doutor – por que pra mim todo professor é um doutor do saber e merece respeito –, eu fiz até o segundo ano do grupo escolar [Ensino Fundamental], mas sou formado na faculdade da vida”.

Isso me impressionou, pois o estudo acadêmico é importante, mas a sabedoria de vida nem sempre se adquire nos bancos escolares, mas, sim, no dia-a-dia ou na prática. E mais: depois de ouvir isso, ao chegar a minha casa, li um artigo de Antônio Carlos de Oliveira, da Academia Amparense de Letras, que tem início do seguinte modo: “Pouco importa o seu grau de instrução, sua posição social ou se você é rico ou pobre. Não há argumento contrário: você precisa ser bom. O mínimo que se espera de você é educação, isto é, a consideração a toda pessoa” (Ser simples e bom. Gazeta Amparense, 07/06/11, p. 02). Estava explicada a atenção daquele diplomata para comigo.

Dizia-me ainda o Carioca que a TJP é a primeira Torcida Jovem do Estado de São Paulo, pois foi fundada em 23 de março de 1969, com o nome de Força Jovem. Veio, portanto, quatro meses antes da Gaviões da Fiel, que é de 30 de julho, e seis meses antes da Jovem do Santos, nascida em 26 de setembro, sendo, desse modo, a organizada mais antiga de São Paulo, acompanhando, assim, a Associação Atlética Ponte Preta, primeiro clube futebolístico das terras paulistas, fundado em 1900.

Sei que este texto já está longo, mas gostaria ainda de justifica o termo “Jovem” no nome da torcida dizendo que o Brasil viveu, nos anos 60 do século XX, uma revolução sócio-cultural que atingiu também os torcedores de futebol. É o renomado historiador Dr. Bernardo Borges Buarque de Hollanda quem escreve que se o movimento juvenil trouxe, nessa época, um novo modelo de torcedor que se diferencia “das tradicionais formas coletivas de torcer oriundas das décadas de 1940, 1950 e 1960, é lícita também a percepção de que o advento das Torcidas Jovens exorbita as fronteiras futebolísticas e enquadra-se em uma dimensão social e política, cultural e artística maior”, pois mexe com o todo nacional (O Clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009, p. 204).

Para Carioca é imprescindível que as organizadas invistam na formação de seus associados com projetos sociais (A TJP tem vários em mente); defendam, sim, os seus espaços (isso é natural à luz da Antropologia), mas “não saiam à caça de confusões por aí, pois quem procura acha”; reúnam-se e passem boas mensagens aos membros de sua organizada; entendam que a rivalidade existe apenas nos 90 minutos do jogo e não sempre; conscientizem-se de que as confusões de torcidas são absurdas, (exceto em caso de legítima defesa assegurada também pela lei natural, lei do Criador na criatura), especialmente quando torcedores bestializados se valem de meios covardes como dar tiros, armar ciladas (“casinhas”), etc., pois “nenhuma mãe criou seu filho para ser morto estupidamente em briga de torcidas”.

Depois de tudo o que foi conversado e de ter eu entregue um exemplar da primeira tiragem de meu livro “Torcidas Organizadas em Amparo: o caminho da paz é possível?” e tirarmos fotos juntos, o presidente da TJP presenteou-me com um embrulho em papel de presente. Nele estavam uma camiseta da Jovem, dois adesivos e uma caneta da Ponte. A camiseta, além de ser um grande sinal de acolhida, era a minha roupa para ir ao Derbi (jogo entre Ponte e Guarani), no Moisés Lucarelli, dia 16 de julho, jogo para o qual ele também me disponibilizou um convite gratuitamente.

Posso, finalizando, dizer que foi um dia proveitoso. A visita, o contato pessoal e a conversa quebram os preconceitos, via de regra, frutos de fofocas de pessoas maldosas. Portanto, parabéns, TJP, pelos seus 42 anos e obrigado de coração, Carioca, pela acolhida fraterna, pela atenção dispensada e pelos contatos proveitosos que me possibilitou, em seu rádio, fazer com várias torcidas brasileiras. Deus recompense copiosamente a você e aos que me acolheram aí. A sede pode ser – para usar as palavras do presidente – “modesta”, mas é acolhedora e oferece abrigo ao amigo e ao irmão que a ela sabe chegar com humildade. E acolhida é tudo, não é prezado(a) leitor(a)?

Vanderlei de Lima é professor, filósofo e escritor. Dirige o projeto TOPPAZ ligado a torcidas organizadas.

Conheça mais sobre a Toppaz: http://www.toppaz.com.br

Fonte: http://www.kala.com.br/index.php?p=noticia_ler&id=13784

DIRETORIA – TORCIDA JOVEM AMOR MAIOR